Hoje não vou falar de empreendedorismo. Na verdade até vou, mas não de negócios, empresas, startup, afins.

Vou falar da trilha sonora perfeita do empreendedor: o Rock n’ Roll!!! 😀

(Aliás dá para repetir o que disse tempos atrás: há quem veja que o jovem que monta uma empresa hoje seja a versão “anos 2010″ dos meninos que montaram suas bandas de rock nos anos 80).

O dia de hoje é histórico para o rock nacional. Temos a reunião de Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá no que provavelmente será a homenagem definitiva a maior banda de rock da história do Brasil, a Legião Urbana.

Antes que você tenha alguma crítica a Legião (engraçado que a crítica existe basicamente em São Paulo, outras praças possuem de veneração, como RJ e Brasília ao respeito a distância em Porto Alegre. Reflitam), vejam alguns fatos sobre a trajetória da banda:

– O movimento do rock em Brasília, conhecido pela Turma da Colina (grupo de amigos fãs de punk e pós punk liderados por Renato Russo e com presenças dos irmãos Lemos, de Phillipe Seabra da Plebe Rude e os menores Dado Villa-Lobos e Dinho Ouro Preto) é o primeiro estruturado que dele brotam bandas de grande sucesso – Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude saem da turma. Antes ou existiam enlatados criados pela indústria fonográfica (como a Jovem Guarda ou o Barão Vermelho com a entrada do Cazuza) ou feitos pontuais, como os Mutantes e os Paralamas. Existiriam movimentos parecidos mas com formações diferentes em São Paulo, Porto Alegre e anos depois no Recife, mas o pioneirismo cabe a Brasília, pelos extremos que a cidade convivia (riqueza e pobreza, liberdade de expressão das influências e governo militar liderado por parentes dos músicos).

– A Legião Urbana é a primeira banda de rock independente a fechar contrato com uma gravadora – em 1983 com a EMI. Vamos tirar o Barão Vermelho da conta porque novamente temos o fator Cazuza – filho do diretor da Som Livre.

– A Legião Urbana até hoje detém o recorde de músicas que atingiram o #1 das rádios com um mesmo álbum – As Quatro Estações com 9 das 11 canções do disco.

Ninguém da sua geração vendeu tantos álbuns – mais de 20 milhões de unidades vendidas. Para terem uma idéia, da mesma geração Titãs e Paralamas, que estão em atividade, estão no patamar das 6 milhões de cópias.

Este é o legado mais técnico, apontado em números e fatos. Mas a Legião vai muito além.

Vendo um especial da MTV para o ao Vivo de hoje, o Nasi foi especialmente feliz ao dizer que “o Legião Urbana foi a primeira banda de rock nacional a trazer os elementos da cena do rock inglês do fim dos anos 70 com requintes da temática nacional, como vemos em Faroeste Cabloco e Eduardo e Mônica.”

A coisa vai muito além. E aí a voz é de Dinho Ouro Preto: “Qualquer um de fora do Aborto Elétrico (banda formada por Renato e os irmãos Lemos rachada em 1982, posteriormente formando a Legião e o Capital Inicial) vinha que havia um diamante escondido no talento daquele vocalista. Renato era o único músico predestinado da turma de Brasília”.

O grande ponto é que Renato Russo era um cara diferenciado. Mais velho da turma, tinha um repertório que ia dos hits do pós punk da época, como The Cure e The Smiths (havia quem comparava sua atuação no palco com a do Morrissey – pura bullshitagem) a elementos de poesia como Camões – lembrem-se que ele canta um soneto do próprio em Monte Castelo, que está em As Quatro Estações. Ele era o cara que passava as referências aos colegas da Colina irem atrás, logo sempre estava um passo a frente.

(Ou seja, para empreender, seja montando uma Startup, um restaurante ou uma banda de rock, você precisa estudar muito. Entenderam? :D)

A soma de repertório com a sensibilidade, uma pitada de violência do sistema contra si (Renato era homossexual, e isso era muito mais difícil de ser aceito nos anos 80 que agora) e principalmente o momento que o país passava -vivíamos o fim da Ditadura e o país estava em frangalhos social e economicamente – éramos o país do futuro, como dizia a música 1965 (Duas Tribos) que ninguém sabia quando viria – foram os fatores críticos para que a banda explodisse.

Legião Urbana (1985), Dois (1986) e Que país é esse? (1987), os três primeiros álbuns da banda, possuem altíssima carga de politização em suas músicas. Dos hits destes álbuns estão “Geração Coca-Cola”, “Que país é esse?”, “Índios” e talvez o grande exemplo de Storytelling na música nacional, “Faroeste Cabloco” (que virará filme este ano, produzido pela Globo Filmes). Como curiosidade, Dois e Que país é esse foram produzidos para serem um único álbum duplo chamado Mitologia e Intuição, mas a EMI não autorizou e lançou-os em separado.

Os álbuns seguintes saem um pouco da temática política (afinal o Brasil já estava democratizado, se bem que ainda com muitas complicações) e volta-se a temas mais bucólicos e sentimentais – As Quatro Estações é o ponto da virada. Este sentimentalismo oscila entre temas adolescentes (“Pais e Filhos” e “Meninos e Meninas”) a depressivos (“Vento no  Litoral” e “Teatro dos Vampiros”) durante todo o resto da existência de obras inéditas da banda, que termina em 1996 com a morte de Renato Russo. Uma exceção é “Perfeição”, de O Descobrimento do Brasil (1994)

A banda encerrou suas atividades, mas Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá sempre quiseram fazer uma homenagem própria deles ao legado que a Legião criou – um séquito de fãs que beirava o messianismo, tamanha a devoção e identificação com as letras da banda.

A banda namorou diversos formatos, desde um breve setist com Toni Platão (membro da Turma da Colina e com voz parecida a do Renato) a especiais com diversos vocalistas – o mais famoso foi o show no Rock in Rio 2011 com Pitty, Rogério Fausino, Dinho Ouro Preto, Toni Platão e Hebert Vianna.

E parece que achou o formato ideal quando a MTV propôs um especial Ao Vivo com o seguinte vocalista:

Pra quem não sabe Wagner Moura, além de possuir uma banda há 20 anos (Sua Mãe – cuja especialidade é oscilar entre clássicos do Rock como The Cure e cantores bregas  como Odair José e Reginaldo Rossi) é fanático pela Legião – afinal sua adolescência coincidiu exatamente com o sucesso da Legião. O cara é tão “legionário” que já cantou duas vezes músicas da banda em filmes – a mais famosa é seu dueto com Alinne Moraes em “O Homem do Futuro”.

A vontade de construir uma homenagem definitiva com o fanatismo do principal ator brasileiro da atualidade foram os fatores para a construção deste especial, que será gravado entre hoje e amanhã aqui em São Paulo, com transmissão ao vivo da MTV a partir das 21h.

Para tirar o peso das costas do Wagner e por um não acordo com a família de Renato, que detém os direitos da marca Legião Urbana, o show é tratado como um tributo feito pelos três. Mas não há como dissociar que teremos mais um capítulo da maior banda de rock nacional escrito daqui a algumas horas.

Se o Wagner Moura, ator exemplar e de postura invejável à maioria dos brasileiros fará um bom papel a frente da banda do seu maior ídolo, não sabemos. Como ele mesmo diz: “Sinto-me abençoado por ter a oportunidade de, como fã, ter a chance de tocar com a banda mais importante da minha vida.” É como um sonho tornando-se realidade: você venera a banda, conhece todas as músicas de cor e salteado, e um belo dia o telefone toca perguntando se toparia fazer um show com eles.

Mas eu sou um cara muito legal com o pessoal do Café com Blogueiros, então tenho uma surpresa para vocês!!! 😀

Sábado fui ao Studio SP da Augusta para ver o show da Orquestra Voadora – banda de marchinhas de carnaval com pegada de maracatu que faz um sucesso tremendo nas glebas da Guanabara. E quando chego na fila vejam só o tweet que chega:


Sim galera, eu vi a Legião Urbana em ação antes do show de hoje. Por mais que o Alê Youssef, dono do Studio SP, disse à imprensa que foi apenas por diversão, vou opinar que a idéia aqui era de testar músicas (foram executadas 14 das 26 músicas que estarão no CD duplo/DVD) e dar mais segurança ao Wagner Moura.

E olha… foi muito emocionante. A soma de admiração pelos dois ícones das artes no país compensa alguma falta de traquejo do Wagner para liderar um grande grupo de rock. E neste ponto aliás não dá para reclamar do ex-Capitão Nascimento: ele mostrou-se especialmente motivado, alegre e empolgado ao longo de toda a execução. Pessoas olhavam-se umas às outras descrentes que estavam vendo a história sendo escrita na sua frente. Outras choravam até soluçar ao ouvirem “Tempo Perdido” e “Pais e Filhos”, entoadas por todas as testemunhas daquele ensaio de luxo.

Para finalizar este post a tempo de começar a me arrumar para a gravação (sim, eu dei sorte: verei tudo de novo :D) e ajudar vocês a tirarem suas conclusões prévias de como pode ser esta que deve ser a última execução da banda (eles dizem que não farão turnê deste disco – acreditemos por enquanto, pois), seguem dois clipes gravados deste show. E com as frases que todos os releases e álbuns da Legião terminavam, que é a versão em latim do título do post: