Charles Bukowski tinha as corridas de cavalo aos sábados pela manhã. Era a sua maneira de se livrar de qualquer tédio. Eu não as tenho. E acordei com muita vontade de escrever, mas o texto ficou entalado bem atrás da minha orelha, não conseguiu fluir pelos meus dedos. Tentei, não deu, levantei e fui caminhar no parque. Saí de chinelo, meias e bermuda. O sol tirou o gelo dos meus pés e o céu (mais uma vez) me ofereceu algum conforto.

Uma partida de futebol feminino infantil estava para começar ali no campinho. Ganhei o dia. Antes fui comprar um sanduíche na lanchonete mais próxima, uma brilhante invenção da culinária junkie: dois hambúrgueres, cheddar, fatias de bacon e creme de abacate. Sim, abacate. Hambúrguer com abacate. Pedi pra viagem, comprei o jornal do dia e voltei ao parque. Ajeitei-me na colina mais confortável e me aprontei para o espetáculo.

As meninas de vermelho se aqueciam com bolas cor-de-rosa, prata ou roxa. As de azul tinham bolas azuis mesmo. Papais e mamães na beira do gramado, em cadeiras de praia e bebidas devidamente acomodadas em caixas com gelo. Os bebês rolando pelo gramado. Enquanto as jogadoras faziam alguns movimentos inúteis, criados pelos treinadores nerds, fui engolindo o lanche. Bem gostoso. Peguei o jornal: Bush nega que CIA usa métodos de tortura. Ah, claro, não precisa nem dizer, todos sabemos da eficiência de Guantanamo e Abu Grabi.

Apita o árbitro, começa mais uma partida em Brea, Orange County. O técnico das vermelhas arma o time num esquema nunca visto antes: 3-7. Ou seja, três garotas plantadas na defesa e sete tresloucadas correndo pelo gramado. O time de azul é mais uniforme, tem dez na linha com permissão para subir ao ataque ou recuar para a defesa. Tanto faz, elas decidem. O ponto forte são as duas atacantes, Christie e Evelyn, donas de algum controle de bola. O ponto fraco é a goleira, Marty, que não deve medir mais de 90cm. À distância, parece uma Barbie perdida na grande área.

Nos 10 primeiros minutos, o jogo fica amarrado, feio, a bola não sai do meio de campo. As meninas estão descontroladas. Parece um Corinthians e América de Natal pelo Brasileirão 2007. O técnica das vermelhas só grita “joga pro lado!” – o que não ajuda para o bom andamento do espetáculo. O time azul começa a se entender melhor e passa a distribuir melhor o jogo. Entre uma canelada e outra, a número 10 recebe a bola, corre, corre, chuta em diagonal, dá certo, a número 8 recebe, corre mais um pouco, corre, corre, corre e acaba o gramado. Ela esqueceu de fazer alguma coisa. A goleira do time vermelho, ruiva e com duas maria-chiquinhas, dá um saltinho de alegria. Ele sente que Christie e Evelyn darão trabalho.

Nova saída de bola. A ruivinha dá um chute de 5 metros, o suficiente para a bola sair da grande área. Uma das gordinhas da defesa alcança a pelota, já marcada por uma nuvem de garotas vestidas de azul. Do fumacê, a bola espirra em direção ao meio-campo, onde está uma das 7 atacantes. Ela recebe, joga pro lado, como manda o chefe, e acerta o passe para a japinha. Está armado o contra-ataque. Ela corre, escapa da primeira azulete, da segunda, lindo lance! Alcança a ponta da grande área, a pequena de azul treme as perninhas, ela prepara o chute e… pelo amor dos meus filhinhos! Se o gol fosse na bandeira de escanteio, seria um golaço.

Christie e Evelyn conversam alguma coisa. Devem combinar alguma jogada. O jogo recomeça, com fortes emoções. Especialmente para os pais, que não aguentam mais tanta canelada nas suas crianças. A meio-campista de azul recebe a bola. Olha para o lado e encontra Christie. Christie domina, limpa a primeira, avança pela lateral e cruza na diagonal. Passe perfeito. A torcida enlouquece! Evelyn ajeita com a perna esquerda, rola com a direita e chuta no canto. Goooooool!!!!!!!!! Sem chances para a ruivinha! Azuis 1 x Vermelhas 0.

O técnico das vermelhas solta mais alguns gritinhos. Ele já está ficando rouco. Ele pede pra camisa 7, que já tem até seios, recomeçar a partida. A japinha toca e ela dá um bico pra frente. A defesa de azul rebate, mas a sobra é da japinha. Ela agora atua pelo flanco direito e se dá bem. Ela avança, entra na grande área! O gol é imenso para a pequena Marty. A japinha respira fundo, mira e chuta forte! Marty incrivelmente salta como uma pulga e faz uma brilhante defesa! A torcida vibra! O que é um pontinho amarelo vestido de azul na grande área? É a Marty.

Marty vai repor o lance. Oh, não! Suas perninhas dobram diante de uma bola tão pesada e alguma tresloucada de vermelho se aproveita! Gooooooool!!!!!!!!!!!! Azuis 1 x Vermelhas 1.

Christie e Evelyn pegam a bola e levam-na à marca central. Mas o juiz não recomeça o jogo. Pelo contrário, ele pede um minutinho. Marty está ajoelhada na pequena na área, chorando com a cabeça entre as mãos, inconformada por ter levado um gol tão infantil. O técnico vai até lá, conversa com ela. Ela decide sair do jogo. Tira a camisa e corre para o colo da mãe. Tadinha da Marty, ela vai ficar melhor. Alguém ocupa a função de goleira do time azul.

Apita o juiz. Esse são os melhores momentos do primeiro tempo, que acaba empatado.

Deitei na grama, comecei a tirar um cochilo. Fui acordado por gritos da torcida. Abri os olhos, apenas mais uma confusão no meio-campo. Ou seja, retomada a partida!

A de vermelho ganha a bola e perde para a de azul. A de azul erra o chute e perde para a de vermelho. A de vermelho se confunde e perde para a outra de vermelho. A outra de vermelho joga para o lado e perde para a azul. A azul ganha da outra de azul e a bola vai para a lateral. O técnico do time azul anuncia uma substituição e quem volta? Marty! Ela mesma! Volta com a camisa 20, sedenta por vingança. Marty corre para o ataque, ninguém toca pra ela. Ela volta e pega a bola por conta própria e manda para o ataque. O ataque perde a bola e Marty volta para ajudar a zaga. Ela toma a bola da japinha de vermelho e deixa para Christie. Christie divide o lance com a de vermelho-que-já-tem-seios
e corre em direção ao gol adversário! Ela entra na área, passa pela primeira zagueira e… penalty! Penalidade máxima! Marty dá 358 saltinhos de alegria! Christie e Evelyn se abraçam!

Evelyn, que fez o primeiro gol, assume a responsabilidade pela cobrança. Ela coloca a bola na marca, dá alguns passos para trás, se concentra, corre, chuta e na traaaaaaaaave!!!!!!!!!! A bola espirra por toda a linha do gol, passa por trás da ruivinha de maria-chiquinhas, as tresloucadas de vermelho avançam para o rebote! Nenhuma delas acerta! Sobra para Christie, que limpa o lace, divide com a zagueira central de vermelho, dá um chute mascado e… defende a ruivinha de maria-chiquinhas! Que partida emocionante!

O jogo ganha cadência. As duas equipes já se estudaram bem e fazem marcação menina a menina. A partida segue truncada, com poucas opções de gol. Marty entra numa dividida e sobe 1.5 metro de altura. Todos esperam a reação da comissão técnica, mas ela mesmo se levanta, tira a franja dos olhos, ajeita o rabo-de-cavalo e parte para outra. No lance de maior perigo, uma das sete tresloucadas ganha a grande área azul e a virada se faz clara. Mas a goleira de azul se atira nos pés da atacante para fazer uma linda defesa. Ela toma uma joelhada na maçã do rosto e o cronômetro é interrompido para a entrada do médico. Um jato d’água na cara e tudo ok.

Está desenhado o empate, senhoras e senhores. Último minuto! A equipe vermelha, mesmo no campo de ataque, joga a bola para a lateral. Cobrança feita pela menina de azul, completamente errada. Sem noção mesmo. O juiz dá reversão. Cobrada a reversão, a tresloucada de vermelho consegue finalmente tocar para a outra tresloucada de vermelho, que corre reto em direção ao gol! Bobeira da zaga azul! A atacante de vermelho avança sozinha com domínio de bola, ajeita e goooooool!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Vira o jogo o time das meninas de vermelho! Para delírio do técnico nerd!

Recomeça o jogo, não dá tempo para mais nada. O juiz encerra a partida. Azuis 1 x Vermelhas 2.