Pela primeira vez o empreendedorismo deixou de ser majoritariamente uma atividade de subsistência para configurar-se em grande maioria uma opção para uma vida mais confortável e confortante. Maior prova disso é que até quadro do Fantástico o tema tornou-se – nas mãos do Max Gueringher, ótimo executivo atrás do sucesso da Cica, mas que nunca foi dono de empresa. Mas a intenção foi boa, e isso é válido.

Outro aspecto que mostra a relevância do tema na mídia impressa e digital. Sou assinante da Exame desde os 20 anos e de um ano para cá, todas as edições trazem uma análise de uma empresa novata chegando ao topo, seja ela tradicional ou um fenômeno digital, como GroupOn, Facebook e, na última edição, o Pinterest.

Pra uma revista de negócios tradicional como a Exame dar a capa e pelo menos uma matéria por edição a Startups, é porque há uma demanda…

Dentre as mais diversas formas de montar uma empresa e “ser dono do próprio nariz”, chamou a atenção o meio digital, influenciado obviamente pelo sucesso meteórico das empresas citadas acima (lembrem-se que o Facebook tem o Saverin como co-fundador) e outras, como Foursquare, Google, Linkedin, Apple (campeã mundial de mídia espontânea – em todos os cursos que fiz ano passado de marketing e mundo digital TODAS AS AULAS tiveram a maça como case) e Instagram – que é a capa da Veja da semana, uma vez que o paulista Michel “Mike” Kriegrer é acionista majoritário. Ter uma empresa digital de rápido crescimento é garantia de ter awareness a custo zero – a imprensa adora histórias relâmpago de sucesso, e o mundo digital é um prato cheio.

Menos Silício, mais Mata Atlântica!

…se chegou a capa da Veja, maior semanário nacional, então é porque temos um movimento grande acontecendo. Em todo o país.

Mas isso não é tudo. Somam-se mais três fatores e temos o porquê da aceleração do empreendedorismo digital brasileiro.

– Cenário macroeconômico: Aquele blá blá blá (que de baboseira não tem nada – acompanhem!) sobre a estabilidade econômica, crescimento da renda, pleno emprego, perspectiva de crescimento acima da média mundial, demanda acelerada e carente de produtos & serviços, Copa + Olimpíada…

– Custo Empreendedor: Além da perspectiva de menor custo x tempo para levantar uma empresa (ainda é custoso e “burrocrático” mas melhorou alguma coisa), iniciar uma empresa na web é muito mais barato que física. Um e-commerce, com domínio próprio e meios de pagamento custa R$ 60 ao mês, por exemplo. Menos que o cafezinho que colocaria numa loja para dar oi aos potenciais Clientes.

– Cases de sucesso nacional: Nada como boas histórias para inspirar. E no Brasil temos algumas delas: Buscapé, que começou com investimento de R$ 400, Peixe Urbano (fruto da pós de Julio Vasconcellos e que valeu investimento do Huck), Submarino, Mandic, Boobox e, por que não, Instagram e Facebook.

Julio Vasconcellos replicou o modelo de uma Startup que conheceu nos EUA para criar o Peixe Urbano, grande rival do GroupOn no efervecente segmento de compras coletivas (primeira foto). Já Marcos Gomes viu um novo mercado para a BooBox e hoje ela é uma das 50 empresas mais criativas do mundo, segundo a revista FastCompany.

voi lá. Foi uma profusão de eventos empreendedores digitais no Brasil. Meetups, intercâmbios de gringos para cá, escritórios de fundos de investimento gringos vindo e nascimento dos locais, programas de aceleração de idéias, premiações, workshops, novos investidores-anjo e a respectiva organização em aportes em novas empresas (e outras não tão novas).

Temos um cenário. Bacana. Fundamental para o fomento e consolidação da iniciativa empreendedora no país a formação de grupos – por exemplo, o Rock anos 80 germinou e brotaram grandes bandas porque “a cena” era a mesma para Legião, Capital, Plebe Rude e até os Paralamas (que eram cariocas, mas o Hebert conhecia bem a Turma da Colina). Não a toa que se nos anos 80 todo jovem queria ter uma banda de rock, hoje o mesmo quer montar uma empresa de tecnologia.

Seriam os jovens empreendedores de sucesso os rockstars da década atual?

Mas após um ano de muita leitura, visitas a eventos variados do segmento, principalmente workshops e meetups, o que ainda vemos são réplicas de dinâmicas do que existe no Vale do Silício. Até as referências de profissionais e livros de consulta são os mesmos. As próprias startups que nascem e destacaram-se nos últimos tempos, se não replicaram modelos de negócios de lá, pensaram como target o mesmo público.

E aí ficam os questionamentos:

– Será que as startups brasileiras precisam necessariamente seguir o modelo de negócio pautado em Canvas, Customer Development, Lean Startup? (Se não sabe do que estou falando, veja nesta apresentação ou leia o incrível blog do Nei Grando).

– Será que precisamos de um pólo de fomento à atividade empreendedora, como os EUA tem no Silício, a Índia tem em Bangalore e a Inglaterra tem em Oxford e na Old Street de Londres?

– Será que os públicos-alvos são exatamente os mesmos? Ou melhor? Será que a dinâmica brasileira não é diferente o suficiente da estadunidense a ponto de proporcionar uma perspectiva completamente diferente deles? Seja ela para melhor ou para pior?

Faz sentido num país de dimensões continentais e tão diferente entre si como o Brasil reduzir o empreendedorismo de impacto a uma faixa entre duas grandes cidades como no Silício?

Lembro que quando fiz a apresentação acima para o Grupo de Mídias Sociais e Inovação Digital da ESPM (InovadoresESPM), o Gil Giardelli fez um questionamento válido: “Se estas técnicas fossem realmente boas e o Vale do Silício realmente tão fantástico quanto falamos, os EUA não estariam na maior crise em 80 anos”. Ao mesmo tempo, numa palestra em comemoração aos 5 anos do seu grupo de estudos iniciou seu discurso inicial com a frase “Nunca foi tão difícil achar um emprego bacana. Ao mesmo tempo nunca foi tão fácil empreender.” Fiquei chateado no primeiro instante, mas hoje faz sentido.

Entender o modus operandi dos gringos, com mais know-how e experiência em construir empresas é válido e, na curva de aprendizado que vivemos, até necessário. Mas mais importante é adaptar/criar as próprias ferramentas e entender que o Brasil possui uma diversidade continental de oportunidades (recuso a usar o termo problemas) e de públicos (da Classe A-Gargalhada dos Jardins aos emergentes de todos as nossas periferias) a atender. Talvez por isso muitos, como a Artemísia, acreditam que aqui teremos o maior pólo de empreendedorismo social do planeta em poucos anos.

O Banco Pérola, inspirado no modelo de negócio do Grameen Bank (do Nobel da Paz Muhammad Yunus) atua numa das frentes que mais fomentará negócios no Brasil nos próximos anos: o empreendedorismo social.

Talvez a solução para a consolidação do empreendedorismo digital no país, mais do que marcos regulatórios, menor burocracia ou maior acesso ao capital, seja não olhar tanto o Vale do Silício. E sim prestar atenção para o que acontece ao redor da nossa Mata Atlântica.